Às vésperas da inauguração oficial da unidade, marcada para 26 de março, participantes das tratativas iniciais relembram bastidores da negociação que colocou o município no mapa dos grandes investimentos do país
São Jorge D’Oeste vive a contagem regressiva para um dos momentos mais emblemáticos de sua história recente. Embora a unidade da Piracanjuba já esteja em operação, a inauguração oficial da fábrica, agendada para esta quinta-feira, 26 de março de 2026, consolida publicamente um investimento que transformou a economia local, ampliou a geração de empregos e projetou o município no cenário estadual e nacional.
Em entrevista concedida na manhã desta terça-feira, 24 de março, à Rádio RCS, o procurador jurídico do município, Moacir Guzzo, o ex-vereador e atual presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Valcir Copelli, e o ex-secretário de Agricultura Alessandro Agostini, o Moita, reconstruíram os passos que antecederam a chegada da empresa a São Jorge D’Oeste.
O relato evidencia que, por trás da implantação da Piracanjuba, houve um trabalho intenso de articulação política, segurança jurídica, negociações fundiárias, mobilização institucional e persistência de lideranças locais que acreditaram no projeto desde o início.
O começo de tudo: de uma possibilidade distante à construção de um projeto real
Segundo Valcir Copelli, as primeiras informações sobre a possibilidade de a Piracanjuba investir na região surgiram ainda de forma incerta, em um contexto no qual outros municípios também apareciam como potenciais destinos da empresa, entre eles Francisco Beltrão.
A partir dessa sinalização inicial, começou uma movimentação silenciosa, estratégica e articulada, liderada pelo então prefeito Gilmar Paixão, com apoio de pessoas próximas à administração e de agentes que ajudaram a aproximar São Jorge D’Oeste da direção da empresa.
Copelli relembrou que uma sequência de encontros, contatos e viagens foi determinante para abrir portas e consolidar o diálogo com representantes da Piracanjuba. O primeiro grande passo foi estabelecer uma ponte de confiança com pessoas ligadas à empresa, até que São Jorge D’Oeste passasse a ser visto com seriedade como opção de instalação.
O processo, segundo os entrevistados, não foi imediato. Pelo contrário: exigiu paciência, descrição e capacidade de convencimento.
Viagens, reuniões e argumentos técnicos pesaram na decisão
Alessandro Agostini destacou que, após as primeiras visitas técnicas da empresa ao município, iniciou-se uma fase de intensas tratativas, em que São Jorge D’Oeste precisou demonstrar, com argumentos concretos, suas vantagens logísticas, produtivas e estruturais.
Entre os fatores apresentados à Piracanjuba estavam a localização estratégica do município, a conexão com diferentes regiões do Paraná, a força da cadeia leiteira e a disponibilidade hídrica, considerada um diferencial importante dentro do projeto industrial.
Agostini relatou que houve uma longa construção de convencimento até a definição final. Uma das reuniões decisivas ocorreu em Bela Vista de Goiás, quando representantes do município participaram de um encontro que durou várias horas e terminou com o chamado “bater do martelo” pela instalação da empresa em São Jorge D’Oeste.
Mais do que uma escolha empresarial, aquela definição representou, segundo os participantes, o reconhecimento de um esforço coletivo que vinha sendo feito com seriedade e visão de futuro.
Segurança jurídica foi peça central para dar sustentação ao projeto
O procurador jurídico do município, Moacir Guzzo, explicou que a consolidação da parceria exigiu uma base legal sólida, capaz de dar segurança tanto ao poder público quanto à empresa.
Ele detalhou que, após a definição da vinda da Piracanjuba, foi estruturado um protocolo de intenções, formalizando os compromissos assumidos entre as partes. O documento serviu como fundamento para o encaminhamento do projeto de lei à Câmara de Vereadores, que posteriormente aprovou as medidas necessárias para viabilizar a instalação da unidade.
Guzzo ressaltou que houve estudos aprofundados para demonstrar a legalidade do apoio prestado pelo município, especialmente diante do interesse público envolvido na atração de uma empresa com grande capacidade de geração de empregos e impacto econômico regional.
De acordo com ele, o município viabilizou contrapartidas em obras e infraestrutura, enquanto a empresa assumiu compromissos próprios, incluindo a aquisição das áreas necessárias para implantação da fábrica.
O procurador também lembrou que, ao longo do processo, foram necessárias adequações normativas e administrativas, como questões ligadas ao Plano Diretor, à proteção do entorno da empresa e à estrutura de captação de água, exigida pelos órgãos ambientais.
Câmara de Vereadores acompanhou e apoiou a construção do projeto
Um dos pontos destacados durante a entrevista foi o papel da Câmara Municipal. Conforme os entrevistados, o Legislativo acompanhou as tratativas desde os primeiros momentos e compreendeu a importância estratégica da instalação da Piracanjuba em São Jorge D’Oeste.
Moacir Guzzo observou que, mesmo com debates pontuais sobre redações e encaminhamentos legais, prevaleceu entre os vereadores o entendimento de que o município não poderia perder a oportunidade de receber um investimento dessa magnitude.
Valcir Copelli também fez questão de reconhecer o apoio dos parlamentares da época, assim como de diversas lideranças e servidores que colaboraram em diferentes etapas do processo.
Negociação de áreas foi conduzida com diálogo e respeito aos proprietários
Outro eixo fundamental da implantação da fábrica foi a negociação das áreas onde o complexo industrial seria instalado.
Alessandro Agostini afirmou que esse trabalho exigiu sensibilidade, presença constante e disposição para conversar com os proprietários rurais envolvidos. Segundo ele, a empresa deixou claro, desde o início, que não desejava desapropriações, mas sim negociações baseadas em valores considerados justos e em acordos que permitissem às famílias saírem satisfeitas das tratativas.
Ao agradecer aos proprietários que aceitaram dialogar e contribuíram para a construção do projeto, Agostini destacou que o êxito desse processo também se deveu ao fato de as negociações terem sido conduzidas de forma transparente, respeitosa e objetiva.
Investimento mudou a percepção sobre o potencial de São Jorge D’Oeste
Durante a entrevista, os convidados foram unânimes ao afirmar que a chegada da Piracanjuba alterou de forma profunda a realidade e as perspectivas do município.
Moacir Guzzo lembrou que, no início, falava-se em um investimento da ordem de R$ 110 milhões, mas que a expansão do projeto já levou a números muito superiores, com expectativa de crescimento ainda maior nas próximas fases.
Agostini, que atualmente mantém vínculo profissional com a empresa, afirmou que o que já foi implantado é apenas parte de um projeto muito mais amplo. Segundo ele, a estrutura em funcionamento e as futuras ampliações indicam que São Jorge D’Oeste está inserido em um processo de transformação econômica duradoura, com reflexos na indústria, no comércio, na prestação de serviços e no perfil populacional da cidade.
Ele citou, inclusive, a chegada de profissionais de diferentes regiões do país, o surgimento de novos empreendimentos e o fortalecimento de toda a cadeia ligada ao leite.
Cadeia leiteira e agricultura familiar também entram em novo ciclo
Valcir Copelli chamou a atenção para os reflexos da instalação da Piracanjuba no campo, especialmente para os pequenos produtores. Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, ele afirmou que já existem iniciativas voltadas à melhoria da produção leiteira, com foco em qualidade, eficiência e aumento da produtividade dentro da agricultura familiar.
Na avaliação dele, independentemente de o leite ser absorvido diretamente pela Piracanjuba ou por outras indústrias, a presença de uma grande empresa no município eleva o nível de exigência, aquece o setor e fortalece toda a atividade leiteira regional.
O entendimento dos entrevistados é de que a fábrica não beneficia apenas quem está diretamente ligado à empresa, mas cria um ambiente favorável a novos investimentos, à qualificação da mão de obra e ao surgimento de oportunidades em diferentes setores.
Crescimento exige infraestrutura e novos investimentos públicos
Se por um lado a Piracanjuba simboliza desenvolvimento, por outro ela também amplia os desafios do poder público. Esse foi um dos temas centrais da fala final de Moacir Guzzo.
Segundo ele, São Jorge D’Oeste precisa agora avançar em obras e políticas estruturantes para acompanhar o novo ritmo de crescimento. Entre as prioridades citadas estão a construção de moradias, expansão de áreas industriais, melhoria dos acessos, reforço na mobilidade urbana e investimentos em infraestrutura para absorver a demanda gerada pelo crescimento populacional e econômico.
Guzzo também mencionou a expectativa em torno do anúncio de novas obras por parte do Governo do Estado, especialmente a ponte sobre o Rio Chopim, considerada estratégica para a região, além de melhorias viárias no entorno da fábrica e no trevo de acesso.
A avaliação é de que, para sustentar o novo ciclo de desenvolvimento, o município precisará de forte apoio estadual e federal.
Um marco construído por muitas mãos
Ao longo da entrevista, os convidados fizeram questão de reconhecer que a vinda da Piracanjuba não pode ser atribuída a uma única pessoa. Embora tenham destacado a liderança do então prefeito Gilmar Paixão na condução política do processo, também citaram o envolvimento de servidores, ex-secretários, vereadores, proprietários de áreas, lideranças locais e pessoas que ajudaram a abrir caminhos nos bastidores.
O sentimento predominante entre os entrevistados foi de gratidão e, ao mesmo tempo, de convicção de que a inauguração oficial da unidade representa mais do que a entrega simbólica de uma fábrica: representa o resultado concreto de uma visão de futuro que começou a ser construída anos atrás.
Às vésperas do ato oficial de inauguração, São Jorge D’Oeste se prepara não apenas para celebrar uma conquista, mas para reafirmar seu lugar como um dos municípios mais promissores do Sudoeste do Paraná.
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