O Rio Grande do Sul amanheceu em luto. Morreu nesta Terça-Feira, 11 de Novembro de 2025, aos 80 anos, o cantor e compositor João Chagas Leite, uma das vozes mais emblemáticas da música nativista gaúcha. O artista faleceu em Erechim (RS), onde residia, após uma longa batalha contra o câncer.
Natural de Uruguaiana, Chagas Leite dedicou mais de cinco décadas à música regional e à preservação da identidade sulina. Dono de uma voz inconfundível e de uma sensibilidade rara, o cantor foi um verdadeiro tradutor da alma campeira, transformando o silêncio das coxilhas e o sentimento do campo em poesia.
Um trovador dos “Desassossegos”
Entre as muitas obras que marcaram sua carreira, uma se tornou símbolo da sua essência artística: “Desassossegos”, composta em parceria com Vaine Darde e lançada no álbum Amigo do Peito (1998).
A música resume, em versos simples e profundos, o espírito inquieto e contemplativo de João Chagas Leite:
“Meus desassossegos sentam na varanda
Pra matear saudades nesta solidão.
Cada pôr do sol dói feito uma brasa,
Queimando lembranças no meu coração.”
Com essa canção, o artista eternizou a melancolia serena do homem do campo — suas ausências, suas esperas e seus silêncios. “Desassossegos” é, para muitos, o retrato fiel do que foi João Chagas Leite: um poeta que transformava a solidão em canto.
Legado e reconhecimento
Chagas Leite foi presença constante nos mais importantes festivais nativistas do estado — Califórnia da Canção Nativa, Musicanto de Santa Rosa, Reponte da Canção, entre outros. Canções como “Flor do Campo”, “Milonga Abaixo de Mau Tempo”, “Gaúcho de Coração” e “Desassossegos” tornaram-se clássicos e ajudaram a consolidar o nativismo como expressão legítima da cultura sul-rio-grandense.
Colegas de profissão lamentaram a perda nas redes sociais. “Se vai uma das maiores vozes da sensibilidade campeira, mas fica o eco de sua verdade”, escreveu o músico Luiz Marenco. A Prefeitura de Erechim e entidades tradicionalistas também manifestaram pesar, destacando o legado de quem “cantou o Rio Grande com o coração e o silêncio de um homem de campo”.
Um canto que permanece
Mesmo longe dos holofotes, João Chagas Leite manteve-se fiel ao propósito de cantar o que sentia — sem pressa, sem vaidade, com a serenidade de quem sabia que o tempo é o verdadeiro palco da arte.
“João Chagas Leite não era apenas um intérprete. Era um sentimento em forma de voz”, definiu um trecho da nota publicada pela Rádio RCS-FM.
O velório e sepultamento ocorrem em Erechim, com presença de familiares, amigos e representantes da música regional.
Por Elisiane Conter
Rádio RCS-FM 87.9 – A voz da tradição e da comunidade.
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